A propósito da liberdade, do sentido e da alegria de viver vou lhes contar uma bonita história.
Valdemar fez de sua vida uma obra de arte digna de ser notada, contada e admirada. Autor de frases famosas do tipo “Enquanto houver otário no mundo malandro acorda meio dia” (Caranba, 2000) ou “se assim não quiserem eu fico, mas fico puto” (Caranba, 1968).
Era um rapaz nevocaos, se dizia anarco-nacionalista de centro extrema. Não respeitava nenhuma lei ou convenção social, sociocultural, socioeducativa ou sócio-econômica. Apesar de, constantemente, apanhar da polícia (e de outros opressores) ele até que foi bem sucedido em suas transgressões: anulou o voto (votou no Clodovil); seqüestrou aviões; pisou na grama; pichou muros; fez xixi na borda da privada; passou no farol vermelho; passou cheques sem fundo; não pagou a conta do telefone; iniciou belíssimos movimentos de revolta que já nasceram derrotados; desprezou “sambinhas de partido alto”; comeu verduras e rejeitou a sobremesa; se masturbou pela irmã; não comprou cartões de natal da AACD; depredou caixas eletrônicos; xingou o patrão (no pouco tempo em que teve um); foi a uma praça “suspeita” mas não fumou maconha; encoxou a mãe no tanque; ocupou latifúndios; apertou o botão de todos os andares; bebeu aldeídos para ficar de ressaca sem ficar bêbado; quebrou os discos do Chico Buarque e assim vai.
Acontece que Valdemar ainda se sentia triste e angustiado com algo que não sabia bem. Será o mal da vida moderna? Pensou Caranba. Isso não, pois ele conhecia bem as mazelas e misérias da vazia vida na contemporaneidade. Estas mazelas, por serem conhecidas, revoltavam-no, mas não o angustiavam. Uma estranha força o fazia sentir que havia mais a fazer, havia mais a transgredir e a banalizar perante essa estúpida realidade.
Eis que, em uma tarde de cinzas, após roubar a bexiga de uma linda menininha (a qual possuía lindos cabelos com cachos dourados como raios de sol), em um lapso de distração, Valdemar deixou o balão escapar de suas mãos. Admirando o balão cair para cima, Caranba logo pensou: - Isso é liberdade!!!
Agora sim sua vida possuía novamente um sentido, ele elevou seu patamar de nevocaos para 220 revolts. Valdemar Caranba passaria a desobedecer as leis da física como uma meta a qual daria um novo sentido à sua vida. Todavia, desta vez, Valdemar não obteria tanto êxito. Tentou fumar debaixo da água e não conseguiu; tentou estar em dois lugares ao mesmo tempo e faltou em um compromisso; tentou viajar em uma velocidade acima da velocidade da luz e tomou um choque; desceu uma subida e percebeu que isso era relativo (além de tomar uma multa); tentou passar pelo buraco da agulha e se picou; ficou batendo cabeça durante meses (no muro) sem se conformar que dois corpos não ocupam o mesmo lugar no espaço. Em um belo dia de primavera foi descer de um prédio sem utilizar o elevador e nem a escada (nem mesmo uma corda), acabando por se espatifar no chão.
Valdemar Caranba caiu do 13º andar, mas não caiu na real.