Aquele era o grande dia. Era o dia da grande marcha. Todos saíram de suas casas seus objetivos unificados. Todos iriam exigir os seus direitos em alto e bom som. Todos em marcha no ato manifesto de passeata em luta de protesto.
Essa era a hora. As ruas estavam cheias de bandeiras, de cartazes, de tambores, de idéias, de poesias, de arte, de música, de mensagens, de gritos de ordem, de revolta, de esperança, de atitude e de disposição. A marcha conquistou um grande número de adeptos. Agora os poderosos não poderiam os ignorar, pois estavam unidos em uma só voz. A corrente era forte.
Após a concentração saíram em passeata. O protesto, como a imensa maioria dos protestos, era justo e legítimo a partir de uma lógica social-humanística de esquerda democrática socialista, comunista ou anarquista (onde também havia rappers, punks e skatistas).
A tarefa está dada. A exploração do homem sobre o homem já se tornara insuportável. A enganação, a sedução e a violência já não podiam ser escondidas. A usurpação, o cinismo e a desigualdade já não podiam ser aceitas. Estão aqui procedendo à luta por pão, trabalho, dignidade, liberdade, igualdade, justiça, terra, democracia plena, felicidade e respeito.
A tarefa está dada. A marcha caminha a passos largos em direção aos seus objetivos. Eles têm tática (de luta), eles têm estratégia (revolucionária). A marcha caminhava a passos largos pelas ruas da cidade com suas exigências, as quais eram inegociáveis. A cada esquina dobrada, o sentimento e o volume de seus cantos e gritos de protesto se tornavam mais fortes. A hora de alcançar seus objetivos se aproximava. Eles têm tática (de luta), eles têm estratégia (revolucionária).
Todos em marcha no ato manifesto de passeata em luta de protesto. Estão chegando próximo do centro do poder de onde emana toda a podridão que estão cansados de ver, que estão cansados de inalar, que estão cansados de tocar, que estão cansados de ouvir, que estão cansados de provar e engolir.
Chegaram a frente do centro do poder. Gritam, cantam, dançam e agitam bandeiras em seu protesto. Suas exigências eram inegociáveis. Foi tirada uma ampla comissão, que já não era de negociação, mas sim de imposição.
–“O povo está nas ruas e exige seus direitos” em coro organizado diziam os explorados.
Mas algo inesperado aconteceu. Os poderosos os ignoraram e não aceitaram suas imposições, nem mesmo quiseram negociar o inegociável. Mas eles continuavam a bradar seus objetivos.
Tropas de choque a postos. Bombas, coletes, balas, capacetes, escudos, cassetetes e a determinação de manter tudo em seu lugar. Todos em marcha no ato manifesto de passeata em luta de protesto. É a hora do grande confronto da grande marcha. Seus direitos não podem esperar mais. Três pedras forma arremessadas em direção da tropa de choque, a qual, por sua vez, lançou sete bombas de efeito moral e algumas balas de borracha para cima da multidão.
A multidão de explorados – com suas bandeiras, cartazes, tambores, idéias, poesias, arte, músicas, mensagens, gritos de ordem, revolta, esperança, atitude, disposição e exigências inegociáveis – fugiu louca, aterrorizada, chorando, e pedindo clemência.
Logo após o incidente, dizia-se, sem conseguir esconder a enorme frustração e vergonha: – “Eles fizeram sua parte”.
Os contestadores borra-botas voltaram para casa sem conquistar suas exigências inegociáveis.
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