VOLÚPIAS ENLATADAS



Na noite passada ele se empanturrou de volúpia enlatada
Hoje acordou com uma imensa ressaca moral
Provou uma colherada do mingau do desdém
Perante seu gosto forte resolveu comer fora
Saiu de casa e esqueceu a dignidade na gaveta

Foi ao bar e sentou-se na mesa da solidão
Como não havia juízo
E a vergonha na cara estava em falta
Tomou um copo de leite
Com uma pitada de cólera

Saiu do bar
Atravessou o túnel da ignorância
Estava muito cansado
Mas não havia muro das lamentações
No qual se apoiar

Se dirigiu à farmácia
E pediu um pouco de liberdade
O frasco é caríssimo
Deve ser administrado em pequenas doses
Caso contrário os efeitos podem ser letais

Viciado em esquecimento
Bebeu todo o frasco
E foi correndo conversar com a bonança
Que estava acompanhada da bem-aventurança
E de outras lindas donzelas

Juntos brincaram como se não houvesse o amanhã
Interagiram nus com arquiteturas modernistas
O bem estar se juntou a eles
E foram se banhar na fonte dos desejos

A beleza
Apesar de estar com eles
Há algum tempo
Deu ouvido à arrogância
E seguiu o caminho contrário
Indicando-lhes o caminho do desprezo

Eles mandaram-na à merda
Ela estava ficando velha
Existem belezas de outras sortes
Que só aparecem junto com a convivência

Encontraram a ética
Espancaram-na até a morte
E jogaram-na no lixo da história
Dançaram de mãos dadas
A dança da vitória

Foram ao supermercado da vida
Apedrejaram seus telhados de vidro
Mas foram pegos pelo consumo desvairado
E se empanturraram de volúpia enlatada

Um comentário:

Andrea Portugal disse...

Sair do caos e ir para onde? será que todos os caminhos levam a merda?