VOLÚPIAS ENLATADAS



Na noite passada ele se empanturrou de volúpia enlatada
Hoje acordou com uma imensa ressaca moral
Provou uma colherada do mingau do desdém
Perante seu gosto forte resolveu comer fora
Saiu de casa e esqueceu a dignidade na gaveta

Foi ao bar e sentou-se na mesa da solidão
Como não havia juízo
E a vergonha na cara estava em falta
Tomou um copo de leite
Com uma pitada de cólera

Saiu do bar
Atravessou o túnel da ignorância
Estava muito cansado
Mas não havia muro das lamentações
No qual se apoiar

Se dirigiu à farmácia
E pediu um pouco de liberdade
O frasco é caríssimo
Deve ser administrado em pequenas doses
Caso contrário os efeitos podem ser letais

Viciado em esquecimento
Bebeu todo o frasco
E foi correndo conversar com a bonança
Que estava acompanhada da bem-aventurança
E de outras lindas donzelas

Juntos brincaram como se não houvesse o amanhã
Interagiram nus com arquiteturas modernistas
O bem estar se juntou a eles
E foram se banhar na fonte dos desejos

A beleza
Apesar de estar com eles
Há algum tempo
Deu ouvido à arrogância
E seguiu o caminho contrário
Indicando-lhes o caminho do desprezo

Eles mandaram-na à merda
Ela estava ficando velha
Existem belezas de outras sortes
Que só aparecem junto com a convivência

Encontraram a ética
Espancaram-na até a morte
E jogaram-na no lixo da história
Dançaram de mãos dadas
A dança da vitória

Foram ao supermercado da vida
Apedrejaram seus telhados de vidro
Mas foram pegos pelo consumo desvairado
E se empanturraram de volúpia enlatada

MFO


Saiu próximo à rua, estava escuro o bastante. Chovia e ele se abrigou embaixo do toldo... de uma cobertura ou algo desse tipo. Era um local público e como em qualquer local público – com coberturas ou não – passa gente de todo tipo. Corpos atravessados por muitos acfetos não causam sobressaltos, mas por ali poderiam passar corpos com algumas intensidades afetuais inconvenientes que poderiam atrapalhar a ação com comentários caretas, politicamente corretos ou com ameaças e coerções garantidas por leis tucanas.
Por conta de gente desse último tipo que ele está esperto e com o olho vivo. Olha para trás, para frente, para a direita (e contém a ânsia de vômito), para a esquerda (e contém o sonolento bocejo), para noroeste à 52 graus e para sul-sudeste à 38 graus. O movimento por aquele território não oferece contratempos. Então... é a hora de acender a chama e fazer um pouco de fumaça.
No momento em que a fumaça inicia sua trajetória uma zelosa mãe de família – voltando para satisfazer sua prole devidamente provida com seis paezinhos e um leite tipo B – reprova veementemente tal atitude nociva. Ele, constrangido, finge que a linguagem corporal executada não lhe dizia respeito e continua a executar estaticamente seu ato. Alguns segundos após, um pontual cidadão pagador de impostos que, todos os dias – inclusive nos fins de semana – passava pela mesma via no mesmo horário exclama diretamente para ele: “sinto-me embasbacado com tamanha estapafúrdia!”. Ele precisa fazer questão de não entender, e o faz.
Minuto depois da exclamação, o Estado – personificado em figuras armadas vestidas de cinza e azul claro – chega ao local se achando incontestavelmente certo. Ele não tem como ignorar... se vira e coloca as mãos na parede. Ele, que possui algo “em cima” e nada embaixo (da palmilha), tenta se explicar, mas não há explicações. Foi pego em flagrante e, junto com o dono do estabelecimento, sofrerá constrangimentos legais nada legais apoiados por parte da sociedade.
Craque?! Ópio!? Haxixe!? Maconha?! Não, ele sorve o conteúdo gasoso de um bastonete nicotinoso livre de substâncias psicotrópicas! Fedido, careta, podre, crivo, pigas... um cigarro.
Não mais que de repente ele ridiculamente perdeu o direito de saciar tranquilamente um vício ou um hábito.
Dizem que 84% gosta, que ninguém é obrigado a inalar a fumaça do cão, que o monoxímetro – que merda é essa!!! – comprova coisa e tal. Que se foda... queremos nosso lugar para fumar.
Ah, o cigarro mata – dizem os seguros. A salsicha do cachorro quente também – principalmente as que são confeccionadas com jornais de conteúdo duvidoso. Deveríamos proibir o consumo de salsichas de cachorro quente em locais públicos ou privados de uso coletivo? Proíbam-se as salsichas!
Ah, mas o cigarro polui o ambiente ao redor prejudicando a saúde do cidadão – dizem os precavidos. Os automóveis e o repolho também. Deveríamos proibir o consumo de automóveis e repolhos em locais públicos ou privados de uso coletivo? Proíbam-se os automóveis e os repolhos!
Ah, mas o cigarro é um hábito, sem razão, mesquinho e muito nocivo – dizem os prudentes. Ler a revista Veja e assistir o Fantástico também. Deveríamos proibir o consumo de Veja e Fantástico em locais públicos ou privados de uso coletivo? Proíbam-se as Vejas e os Fantásticos!
Sob tais circunstâncias, lançamos as bases para o MFO (Movimento dos Fumantes Oprimidos)... todo homem tem direito de fumar como quiser! Fume no chuveiro, no quintal, fume nu, fume numa boa!!!
Convocamos todos que desprezam o monoxímetro a um FUMAÇAÇO.
O ato se dará em algum bar, restaurante e/ou casa noturna de SP. Todos - relógios sincronizados, cigarros, cigarrilhas, charutos, cachimbos, charuletas, paiotos, isqueiros e fósforos à mão –, no momento combinado, ao som de “Eu fumo sim e estou seguindo, tem gente que não fuma está tossindo” acenderemos nossas dignidades perdidas e defumaremos os germes serristas da nação!!!!
Você está convocado! Aguarde as próximas coordenadas – a serem dadas por sinais de fumaça, já que e-mails são rastreáveis –, trague sua coragem e queime tudo aquilo que lhe estorva.
Não respire, estou fumando!!!*
Abraços fumegantes: Pepe de La Coña

*E que nenhum fabricante de cigarro venha colar sua imagem com a nossa
!!!