A VERDADE DE NADIE

Um ser sujo, maltrapilho e mal cheiroso caminha com um papelão debaixo do braço. Na praça demonstra sua fé, babando satisfeito e aplaudindo com os pés. As pessoas passam por ele e não compreendem de onde vem a satisfação de uma existência miserável como aquela. Permitam-me contar a bela história desta figura.

Jão Nadie é um mendigo riquíssimo. Nasceu da miséria da riqueza ou da riqueza da miséria. Vive de restos e de migalhas que por obra do acaso, ou não, caem em sua cesta, ou melhor, em seu chapéu. É o que muitos chamariam de vagabundo nato. Se não é de seu máximo interesse, ele não move uma palha. É de se notar que, em matéria de interesses, Jão não possui muitos. Tirando o gosto pela liberdade, pelo descanso contemplativo e pela galhofa (ou tiração de sarro), Nadie não possui muitos desejos logo, sofre muito pouco.

Nadie vagueia pelos mais diferentes espaços. Devagar e sempre, vai de cidade em cidade, de Estado em Estado conhecendo os horizontes que se apresentam à sua visão. Jão Nadie nunca está com pressa, nunca está sofrendo com a falta de tempo ou correndo atrás dele. Se ficar cansado deita em seu papelão ou em pufes de lixo distribuídos confortavelmente por qualquer canto onde haja seres humanos.

Das muitas paisagens conhecidas - matas tropicais, equatoriais, ciliares, selvas de pedra, cerrados, caatingas, pradarias, serras e restingas - prefere os grandes centros urbanos. Prefere os grandes centros urbanos não por uma questão de sobrevivência (+gente = +comida), mas por pura diversão. Adora montar sua tenda (composta por um papelão King size) em grandes e movimentadas avenidas.

Na hora do ruch (às seis da tarde, por que às oito da manhã está descansando contemplativamente) é um deleite. Jão Nadie vibra em ver as pessoas passarem como loucas em sua frente, é como um bálsamo para sua alma. Os caraíbas estão sem tempo, vivem reclamando da falta de tempo, correm atrás do tempo perdido, sentem-se aliviados ao recuperar um pouco de tempo. Jão ri calado, mas em sua risada há um componente de tristeza. Como podem as pessoas se auto-maltratarem dessa forma? Quanto sofrimento. Nadie devolve os olhares de dó que recebe com grandes olhares de compaixão (dos poucos olhares que recebe, a grande maioria são de dó).

Jão Nadie tem a plena convicção de que não precisa de muitas coisas para ser feliz. Um homem (e uma mulher) só precisa comer, beber, dormir, cagar, mijar, fazer sexo e discutir com adolescentes para ser feliz. O resto é necessidade artificial – isso sem contar o número muito baixo de gostos que possui. Acha uma estupidez uma vida cheia de bibelôs. Muita frescura demanda muito esforço e sofrimento desnecessários.

Jão algumas vezes come lixo, mas o azedume do alimento, para ele, soa como um queijo gorgonzola. A água da chuva ou da torneira continua molhada. Nadie dorme sobre poças d’água ou na lama como se estivesse em um colchão de molas. Muitas vezes dorme com fome, mas dorme a hora que quiser. Sua liberdade despudorada lhe permite cagar e mijar em qualquer lugar sem maiores apertos. Mendigas para meter na vida é o que não falta, aliás, chupeta de mendiga é uma das maiores expressões de liberdade. Discutir com adolescentes... oh!... para discutir com adolescentes, qualquer motivo é um bom motivo.

Ele recusa as ofertas mais caridosas das almas mais bondosas. Na noite mais fria do ano recusou um quente e macio cobertor com afirmações ritmadas e ritualisadas que se pareciam com uma marchinha de carnaval: – “Vai tomá no cú, vai tomá no cú!!! A maciez, o conforto desse cobertor me enoja, REI, me enoja!!! Quem pensa que sou, madame senhora, quem pensa que sou!!??”. Jão fica com frio, mas não fica moralmente comprometido.

Jão Nadie recusa o esforço desnecessário. Certa vez, conversou com um homem de negócios, um “homem vencedor”. Jão foi questionado sobre sua atitude para com o mundo a partir da seguinte afirmação:

- “Recuso-me a dar esmola... pago pelos serviços que me são oferecidos, se estivesse tocando violão, e não parado, lhe daria algo”.

Ao que Nadie respondeu, enquanto executava maravilhosos rodopios:

- “O repouso é relativo enquanto que o movimento é absoluto. Esmola não recebo, recebo migalhas esquecidas, tu que recebes esmolas dos pobres imbecis que insistem em trabalhar para o bem de suas negas. Não trabalho, mas também não exploro. Sou útil a sociedade, sou o depositário de uma falsa compaixão generalizada que utiliza esse disfarce para encobrir o sentimento de enorme satisfação que se dá ao saber que há alguém em situação pior. Um ser patético como você, que só pensa em dinheiro, em liquidez e em fluxos de caixa se considera sério? Vai você e o mercado pra puta que o pariu!!!”

O homem vencedor foi embora indignado e ultrajado pelas palavras desse pobre diabo.

Realmente Nadie acha uma estupidez se esforçar por “novos investimentos” ou pelo “bem da corporação” ou mesmo para “tirar unzinho aí”, não vê sentido nisso, o mundo é mais.

Sua atitude é subversiva, mas nem todos concordam. Certa vez, conversou com um ladrão, um “mano de estilo”. O mano o esnobou:

- “Ih véi, si liga!!! Cê num tem vergonha de fica aí pagando um sapo pros bói, implorando ajuda e agradecendo as merreca. Cê tá entrando no jogo dos cara... eles qué nóis assim, qui nem corderinho!!??”

Jão plantou uma bananeira e respondeu:

- “É você que tá pagando um sapo pros bói. Cê num si ligô que a sua busca pela inclusão no mundo do consumo também alimenta o sistema que você tanto despreza? Onde você torra a grana que você ganha? Eu não agradeço e não me sinto grato com as migalhas que caem no meu chapéu, sou um bom mendigo, sou ingrato, cínico, rancoroso e debochado. Não perco minha vida trabalhando, o crime é seu trabalho, ele alimenta o sistema na medida em que distribui a renda, na marra, mas não o suficiente para subverter o sistema. Dessa maneira, o seu crime-trabalho é como uma válvula de escape limitada que perpetua o sistema e legitima o uso da força na dominação. O crime é o creme!!!”

O mano de estilo foi embora duvidando de sua atitude e disposição.

Essas são as verdades que interessam à Nadie. Ele faz a sua produção de verdades, vive estas verdades e dá risada. Não precisa se legitimar a não ser perante a si mesmo. Jão Nadie sem querer nem desejar atraiu um enorme número de seguidores.

Céus e terras passarão, mas o exército de mendigos e leprosos não passará!!!