HOMENAGEM AOS HERMANOS


Do mar onde não havia prata

Mas somente águas amarronzadas

Vejo Buenos Aires coberto

Pela fumaça do Diesel de uma grande Cidade


Ruas estreitas e largas avenidas,

Fios e cabos elétricos cruzando os prédios pelos ares

Chorizo, morcilla, alface, batata e suco de laranja

Enfim um comichão em Buenos Aires


Gente simpática gente estúpida

O garçom é bravo e o serviço de mesa é um pão

Vinho, cerveja, uísque e outras águas estranhas

O cone sul gira e acho que vou tira um sonão


Monumentos parques palácios museus e bares

Vamos de metrô trem e busão de forma cuidadosa

Gente suspeita caminhando na cidades perigosa

Mas também tem uma pá de argentina gostosa


Seguimos seguindo a conhecer a mais européia das cidades da América Latina

Cheia de Bank de Boston, Mc Donald e Microsoft na latrina

Mas ao deixar essa cidade louca e atrativa não agüentei e chorei

Pois tenho uma certeza: Nessa vida, talvez, aqui jamais voltarei

O PRIMEIRO MUNDO DE RAIMUNDO

Raimundo Dotado é um homem lutador e idealista. Acredita em um mundo novo, um mundo melhor. Para ele, um outro mundo é possível e necessário.

Dizem por aí que um homem que luta um dia é um homem bom, um homem que luta mais é melhor ainda, mas um homem que luta a vida inteira é imprescindível. Dotado é um homem imprescindível.

Sua consciência política veio junto com fitas K7 de punk e rap nacional. A realidade social nua e crua dita pelos subúrbios e periferias entrou em sua alma como uma facada cuja cicatriz só sairia com uma delicada e cara cirurgia. A explicação da realidade via músicas de protesto veio como uma lamparina que ilumina um ponto da escuridão. Raimundo começava a entender uma parte da sacanagem a que estava sujeito junto com seus pares.

Mas a escuridão é grande e precisa ser mais bem iluminada. Raimundo entrou para o grêmio estudantil de sua escola para também atuar como uma lamparina a iluminar a realidade. Mais do que iluminar, atuar na resolução da bagunça que agora pode ser vista e nomeada.

Decidiu estudar mais profundamente a sociedade, a política e a economia para melhor iluminar e, consequentemente, potencializar a arrumação da bagunça. Dotado entrou em uma excelente universidade. Estudou muito e permaneceu atuando politicamente no movimento estudantil. Dizia que deveria estar o mais ciente possível dos fenômenos da vida em sociedade para poder atuar de uma maneira mais efetiva e eficaz.

Assim sendo, Raimundo Dotado estudava muito e atuava politicamente. Nunca conseguiu ou quis entrar em um partido político, dizia que não conseguia se identificar totalmente com as propostas de nenhum deles. Seu caminho natural, após o término da graduação, foi atuar em pequenos coletivos e a trabalhar em ONGs.

Nunca abandonou a sua luta por um mundo melhor. Realizou projetos e mais projetos de educação integral e semi-desnatada. Formações, capacitações, cursos e aulas. Comícios, manifestações, atos e intervenções. Raimundo era bom naquilo. Dotado acreditava piamente que poderia mudar o mundo e foi se destacando em suas ações. A cada dia que passava, com muita luta e esforço, chegava um pouco mais próximo de seus objetivos. Sentia-se seguro do que poderia realizar e dava grandes passos em sua caminhada. Raimundo entendia bem a sacanagem pela qual estava submetido e atuava hábil e eficazmente na correção de tais desvios.

Um belo dia chegou ao ponto de ruptura, o salto qualitativo foi dado e Raimundo Dotado atingiu os seus objetivos: Conseguiu uma tremenda promoção na ONG em que trabalhava e passaria a ganha muito bem por isso.

Com o entendimento da realidade agora não é mandado, manda. Com o mando e com um bom salário arrumou a bagunça: agora não passa mais perreio, tem do bom e do melhor. Na propriedade do bom e do melhor atuou como uma lamparina a iluminar a realidade para todos os seus antigos companheiros: com um salário mensal de Dez Mil Reais o Brasil passa a ser automaticamente um país de primeiro mundo.

Este é o Primeiro Mundo de Raimundo.

Para ele, mais do que uma rima, isso foi uma solução.