Josenildo Arreba Tamento andava com a cabeça nas nuvens. Há dias fica sentado na beira do mar admirando a paisagem. Quando as pessoas lhe dirigem a palavra, Josenildo fala sobre coisas estranhas, palavras quebradas, idéias pueris e equações improváveis. Por conta de suas nefelibatisses perdeu o emprego. Seu Ramiro, dono do armazém de secos e molhados, não agüentava mais os trocos errados dados por Josenildo, não agüentava mais os copos mal lavados deixados no escorredor, não agüentava mais ver Arreba viajando enquanto os clientes esperavam no balcão. Seu Ramiro é homem sério e não podia deixar seu negócio desbancar.
A gota d’água caiu quando Dona Gertrudes, freguesa antiga que paga as contas em dia (coisa rara), reclamou da demora de duas horas na entrega de suas compras. Como poderia Josenildo demorar duas longas horas para entregar uma compra a três quadras. Seu Ramiro decidiu investigar e descobriu que Josenildo passou uma hora e cinqüenta e três minutos olhando para a Ilha do Fora.
Ao ser cobrado por explicações, não negou o fato e descreveu como aquele dia a geralmente nubosa Ilha do Fora estava com o horizonte belissimamente limpo e vistoso. Descreveu as complicadas e maravilhosas curvas que as montanhas da ilha delineavam no horizonte, explicou o quão radiantemente verde parecia sua vegetação e o quão misterioso era o seu reflexo dançante no mar. O dono do armazém não quis mais ouvir aquelas coisas esquisitas e lhe demitiu.
Josenildo Arreba Tamento sempre foi um rapaz comum, trabalhava, estudava, tinha uma namoradinha e nos fins de semana batia uma pelada. Era um bom filho, um jovem educado, ia à missa aos domingos e queria comprar uma casinha. Sonhava com a carreira militar, seguindo os passos do avô queria servir e proteger a pátria.
Todavia, em um sábado de sol Josenildo escutou uma conversa estranha de Laurênsio, o velho que cuspiu no chão do bar. O velho punkado contou todos os mistérios e as maravilhas que cercavam a Ilha do Fora. Falou sobre os deliciosos cachimbos que fumava debaixo do mar da Ilha do Fora, sobre a sensação indescritível de se chupar um crânio da Ilha do Fora, sobre o sistema numérico oncedecimas da Ilha do Fora, sobre os homens que amam ramos de brócolis da Ilha do Fora, do mostruário de moléculas e de elementos da Ilha do Fora, das piruetas de Pelemerda da Ilha do Fora, dos papagaios de marte que falavam em árabe com sotaque alemão na Ilha do Fora, das montanhas que não se parecem com montanhas e que iam até os Mohamedes da Ilha do Fora, das mulheres que se deliciavam de prazer e jamais perdiam a virgindade na Ilha do Fora, das diferentes linguagens e significados sem significantes da Ilha do Fora, dos gases inteligentes que alimentam a Ilha do Fora com suas narrativas.
Josenildo ficou maravilhado com essas lindas histórias. No começo achou que tudo era mentira. Desde pequeno ouvia histórias medonhas sobre tal ilha. A que mais lhe assustava falava sobre O Abismo Parepistêmico que há no caminho das linhas de fuga que se dirigiam para tal ilha. Diziam que os barcos que seguem aquela direção caem em um enorme abismo, no fundo do abismo há o monstro do fim do mar que na noite de breu se põe a voar. Ademais os que lá chegam, de lá jamais retornam. Os que retornam deixam lá a alma e a consciência: voltam endiabrados, loucos, inadaptados e perigosos – caso do velho Laurêncio.
Mas o rapaz se sentia horripilantemente entediado com a vida e com as paisagens da Praia do Ordenado e foi atraído pela grande intensidade do campo magnético da Ilha do Fora. O rapaz agora queria voar e saiu espalhando as histórias de Laurênsio pela vila causando medo, dó, repugnância, dúvida e agressividade nas pessoas que o ouviam. Alguns o intimavam usando como argumento as horríveis histórias que contavam sobre o lugar: “As neblinas teóricas que rondam a Ilha confundem os sentidos e ameaçam a sociabilidade necessária para a vida...”, “Se fores para Fora, tornar-te-á de um escombro humano” ou “irás sufocar sem ar nas imensas altitudes dos picos das Montanhas de Absurdo”. Outros o evitavam: “não deixe as crianças chegarem perto dele” dizia-se pela vila. Muitos o chacoteavam e o ridicularizavam.
Josenildo Arreba Tamento não se intimidou. Foram até a sua casa o padre, o prefeito, o tio, o professor, a namorada, o delegado, o psicólogo, o zagueiro do time, o banqueiro, o poliglota, o açougueiro e o fenomenologista, mas ninguém conseguia arrancar de sua cabeça essa estúpida idéia. Todos tinham um enorme medo dos perigos sensíveis e afectuais que a Ilha representava. Mas esse medo não tocava o coração de Arreba Tamento.
O rapaz ficou surdo de monotonia perante o que lhe diziam. Percebeu que Báscara não sobreviveria ao sistema oncedecimal e jogou o livro de matemática fora. Cansou-se dos rios que são sempre rios das planícies que só se parecem com planícies. O nível de identificação com a língua se tornou tão precário que não conseguia mais unir o sujeito ao predicado – que dirá do objeto indireto. Na verdade, letras e palavras já não davam conta do que se queria expressar, não há fonemas para isso, o leque estrutural lingüístico se tornou uma camisa de força insuportável.
No outro dia o velho marginal apareceu boiando morto no mar. Os comentários, sempre acompanhados de um “Oh!!! Pobre Diabo...”, diziam que ele mergulhou a procura dos senhores do impossível e afogou. Esse fato serviu de argumento de repreensão a Josenildo e ele sentiu o cheiro de cotidianidade pútrefe no ar comum. Sabia muito bem que os senhores do impossível jamais nadariam nas águas da Praia do Ordenado.
O tédio e o nojo se tornavam insustentáveis: chegou a hora. Josenildo Arreba Tamento se sujou na lama morna do horrível pântano do ódio e com essa horripilantemente escura lama correu para o mar rumo a Ilha do Fora. Quando havia se afastado mais ou menos quatrocentos metros da praia, foi visto por um grupo garotos que caçavam caranguejos na praia.
Rapidamente a notícia e o pânico tomaram conta da vila. Todos deviam preparar o salvamento o mais rápido possível, não podiam deixar Josenildo se aproximar das águas metafísicas da Ilha do Fora e de sua estética impossível.
Josenildo sentia a magia, o encanto e a poesia penetrarem em sua alma. Começou a sentir as mais verdadeiras ilusionísses perceptíveis. Como estava sendo afetado e atravessado naquele momento. A cada braçada, sentia as engrenagens estourando, espanando e escapando de tal maneira que a qualquer momento a máquina da verdade mundana iria parar e atrofiar todo o estoque do conhecido.
Nessa hora, os nativos ordinários já estavam com suas canoas ao mar em busca de Arreba, a velocidade e o desespero marcavam o ritmo da ação. Barcos, canoas e botes atrás de Josenildo.
Arreba Tamento se aproximar do Abismo, avistou o monstro do fim do mar e o guarda da Fronteira Cosmológica que lhe gesticulavam alegremente. O escuro pleno proporcionou a mais nítida visibilidade que atravessou a vida de Tamento. Já se misturaram seus sentidos: a audição estava na língua, o olfato nos pés e mãos, o tato no ouvido, o paladar no olho e a visão no nariz. No momento em escorria de seu cabelo os últimos torrões da lama morna, desclassificou o sol por ter iluminado toda essa estrutura.
Quando Josenildo estava muito próximo da deliciosa invisibilidade da Fronteira olhou para trás e quase recebeu um tiro de realidade torpe no nariz vindo de uma espingarda dos ordinários que estavam à sua procura... por conta de uma existência de contornos pouco definidos Josenildo não foi acertado.
O salvamento não foi realizado com êxito. E agora As fronteira do possível agora possuía uma preocupante rachadura.